Brian May

O CIENTISTA

 

Construiu a primeira guitarra aos 16 anos, com madeira de uma lareira. Hoje, o guitarrista dos Queen é um homem tímido e dedicado à ciência. Diz-se um romântico.



    Como é que um estudante de astrofísica acaba a tocar guitarra numa banda de rock?
Interessei-me pela música e pela astronomia com a mesma idade, quando tinha 8 anos. Para mim, as duas coisas sempre andaram lado a lado. Além disso, no sítio onde eu cresci, na zona Oeste de Londres, passava-se muita coisa a nível musical, no início dos anos 60. Alguns dos Yardbirds andavam na minha escola… E quando tinha 15 anos, os Stones tocavam no Crawdaddy Club, ao fundo da minha rua, todas as semanas.
 
    Foi por isso que construiu a sua própria guitarra eléctrica?
Não, eu comecei bem mais cedo. Sou mais velho do que pensas! Essa guitarra apareceu mais cedo, em resposta aos Shadows – eu adorava o som metálico deles.

    Quando conheceram o Freddie Mercury, perceberam logo que era um grande talento?
Não. Na altura ele trabalhava numa banca de roupas, no mercado de Kensington. Quando o conhecemos andava de um lado para o outro, a abanar um pompom. Tinha sido estudante design e estava sempre a fazer desenhos do Jimi Hendrix. Alguns dos quais ainda tenho. Estava muito em bruto: tornou-se um talento refinado mais inicialmente corria demasiado, e gritava demasiado. Mas tinha um entusiasmo ilimitado e uma confiança extraordinária nele próprio, e em nós.
 
    Os Queen surgiram no auge do glam rock – era assim que se viam?
Estávamos a sair de um período em que era fixe tocares de costas e perderes-te nos teus solos. Nós decidimos logo que queríamos tocar para o público e envolvê-los de todas as formas que pudéssemos: com luzes, som, roupas, estruturas musicas. David Bowie foi uma grande influência; quando vimos Ziggy Stardust no Rainbow (sala londrina, fulcral nos anos 70), pareceu-nos a actuação mais importante do mundo. Mas não éramos bem glam. Aliás, quando estávamos a tentar fazer o primeiro álbum, sentimos que toda a gente se conseguia fazer ouvir, menos nós.
 
    Aparte o cabelo, sempre evitou os excessos do rock.
Eu divertia-me, mas quando andava na universidade tomei a decisão de que não iria tomar drogas, nunca, porque queria ter a certeza de que tudo o que me acontecia era real. Tinha consciência da minha própria fragilidade, sou muito emotivo. A música arrebatava-me e eu não sentia necessidade de mais nada. Até hoje, nunca tomei uma única droga. Nem sequer gosto de tomar aspirina.

    Como é que encararam a chegada do punk?
Muito bem. Os Sex Pistols estavam no estúdio ao lado do nosso, quando estávamos a fazer News Of The World (álbum de 1977). O John Lydon e eu tivemos várias conversas no corredor e ele parecia ser um tipo muito simpático, completamente empenhado na sua música. O Sid Vicious apareceu no nosso estúdio e disse ao Freddie “Oh, tu és aquele gajo que leva a ópera às massas, não és?” e o Freddie respondeu “Sim, e tu não és o Simon Ferocious?”. Deram-se lindamente. Acho mesmo que Never Mind The Bollocks é um dos melhores álbuns de rock de sempre. Não aceito aquela ideia que antes do punk não havia nada que prestasse. Never Mind The Bollocks inseria-se perfeitamente no maistream do rock. Vai ouvir as coisas do início dos The Who e dos Stones: o punk não foi uma revolução – foi uma evolução.
 
    Ainda se fala da festa de lançamento – em Nova Orleães – do álbum Jazz, de 1978, supostamente com strippers transexuais e anões com bandejas de cocaína…
Sempre que íamos a Nova Orleães todas as pessoas diferentes apareciam, foi por isso que fizemos lá o lançamento. Muita coisa estranha aconteceu nessa noite, claro que tem sido exagerado, mas não vou estragar o mito. Na realidade eu mal estive lá nessa noite, sou um romântico incurável e tinha-me apaixonado em Nova Orleães alguns anos antes. Como a miúda em questão não apareceu na festa, peguei num carro e fui à sua procura. Não tive sorte… Uma coisa muito pouco rock de se fazer.

    ESSENCIAL
Queen II (1974): O álbum em que as fitas de gravação quase ficaram transparentes, tantos foram os overdubs (gravações sobrepostas) de guitarra que May aplicou.

 


Robert Santdall Q Magazine/Planet Syndication
(Tradução de Luís Bento)

Entrevista transcrita pelo Tear It Up da revista Blitz - edição de Setembro de 2008